Batalhão de Caçadores 2863 - C.C.S.

Outubro 31 2009

 

ENFERMARIA DO FIGOÉ 28.02.1969

 

Foto tirada em frente da enfermaria do Fingoé. A Secção de Enfermagem da C.C.S.:

 

                                                           o Benildo - o Beja - o Viana - o Fafe - o Amadeu

                                                                               e o cachorro pastilhas

A equipa completa com  o Dr. Diniz da Gama ( e o mainato Manuel que bebia o álcool dos frascos para as injecções, tanto fazia etílico com o metílico a bebedeira era a mesma)foto do Viana 

Hospital do Fingoé 

 

O nosso Dr. Diniz da Gama e o Benildo, no Bloco Operatório do Hospital do Fingoé, operando uma mulher negra, ferida com um tiro na coxa da perna esquerda, ficou como nova depois da intervenção.

O Amadeu a treinar no braço do Viana (foto do Viana) 

 Viana a treinar no rabo do Fafe, com paludismo (foto do Viana)

A ambulância do INEM do Fingoé (foto do Viana)

 

Uma história que me lembro bem, foi uma operação, que o Dr. Diniz da Gama e seus auxiliares, fez a uma cadela que havia no quartel. O objectivo foi retirar 10 cm de intestino do animal, o que aconteceu com pleno êxito para a experiencia e para o animal que sobreviveu sem qualquer problema. 

O Dr. Diniz da Gama explicou que a experiência servia para o caso de uma emergência, se houvesse um ferido com estilhaço de granada, com o intestino exposto, seria assim que se devia proceder.

Parece que estava escrito, a situação sucedeu mesmo como imaginado, no ataque que os guerrilheiros fizeram à Cantina do Oliveira, onde houve vários feridos,  um deles, negro, ficou nessa situação, com o intestino de fora, só que o Dr. Diniz da Gama já não estava para nos ajudar, tinha sido destacado para Mueda onde era mais necessária a sua perícia para cirurgias. O negro ficou toda a noite a molhar o intestino com soro fisiológico, até ser evacuado para Tete do dia seguinte.

O incidente da Cantina do Oliveira foi ao final do dia, já era noite, no Fingoé só sabíamos que tínhamos camaradas feridos que necessitavam do nosso apoio, foi então que se decidiu socorrer com o auxilio dos rodesianos, que estavam no nosso quartel com os seus helicópteros, em missão conjunta com as nossas tropas.

Foi a situação mais tensa que vivi, os helicópteros para chegarem à Cantina do Oliveira de noite, em plena selva, foi necessário balizar o local de aterragem com focos de luz  (petromaxes, lanternas, fogueiras e outros meios) em circulo, e lá parti com a coragem dos rodesianos, que foram impecáveis e destemidos no apoio que nos deram naquela hora de aflição. 

Sr. Professor Dr. Diniz da Gama

(para nós o nosso Dr. Diniz da Gama)

Director do Serviço Cirurgia Vascular do Hospital Santa Maria

(ver www.hsm.min-saude.pt)

Serviço Cirurgia Vascular

É com orgulho que o relembramos com toda a sua simpatia e simplicidade para todos nós.

 

Muitas histórias mais serão contadas, umas de má recordação outras nem tanto. Era na enfermaria que se viviam momentos de grande tensão emocional.

 

memórias

 

Benildo Lopes

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publicado por Benildo Lopes às 22:36

Outubro 30 2009

 

Não tenho a data destas fotos, mas penso que a razão deste desfile, na parada do quartel do Fingoé, foi a substituição do nosso Cdt. Costa Pinto, como se pode observar ainda não havia abrigos junto aos edifícios, que foram mandados fazer pelo comandante que o substituiu

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alguém pode ajudar? 

 

23 de Novembro de 2009  - Ver comentário de João Gonçalves

 

Está esclarecido, o desfile na parada do Fingoé, realizou-se aquando da substituição do nosso Comandante Costa Pinto pelo novo Comandante Barão Pinto. Na minha memória ficou mais o primeiro comandante que nos acompanhou desde Évora até ao Fingoé e que penso foi amigo de todos. Tenho uma foto do comandante num convivio do batalhão em Lisboa na Casa Pia que mais tarde publicarei.     

 

memórias

 

Benildo Lopes

 

 

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publicado por Benildo Lopes às 23:45

Outubro 29 2009

 

O AEROGRAMA

 

 

Quem não se lembra dos aerogramas, primeiro eram amarelos depois passaram a azul bébé, o MNF tratava-nos assim, os seus meninos, talvez daí esta ultima cor. Enfim era o regime através das senhoras, que nos iam dando algum apoio moral.

Mas o mais importante, era nestes pedacinhos de papel que nós comunicávamos com as nossas familias, com as madrinhas de guerra e as namoradas, que lhes transmitiamos os nossos estados de espírito, que as tranquilizavamos, dizendo que tudo estava bem, mesmo quando as coisas ficavam complicadas. Belos tempos, mesmo na guerra, quando escrevia de empreitada a toda a familia.

 

 

O CORREIO

 

E o correio, quem não ficava contente em recebe-lo, saber noticias da família e dos amigos.

A impaciencia que setiamos enquando não chegava a avioneta de Tête com a nossa correspondência, que liamos e reliamos até a saudade ficar mais branda.

 

 

 memórias

 

Benildo Lopes

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publicado por Benildo Lopes às 21:06

Outubro 23 2009

 

 

 

A todos os amigos e ex-camaradas da guerra, aqui está um projecto de blog do nosso batalhão onde todos podem contar as suas histórias, colocar as fotos das vossas recordações e descrever as memórias dos tempos passados na tropa e em Moçambique e dos diversos almoços convívios que se têm feito ao longo destes 38 anos que já passaram depois do regresso.

Espero que com este blog consigamos manter viva a chama da  nossa amizade e que ao mesmo tempo nos mantenhamos todos em contacto:

 

- Deixo os meus contactos para os interessados:

 

- Benildo Augusto Pinheiro Lopes (ex-Furriel Miliciano Enfermeiro da CCS - o pastilhas)

 

- Endereço de e-mail: benildolopes@gmail.com

 

- Fax - 212 918 436

 

- Tlm. 964 076 164

 

Vista aérea do quartel do Fingoé ainda em construção

Quartel do Fingoé 1969

 

Vista de Vasco da Gama 1969

 

(04.11.2009) - Esta foto que se pensava ser de Gago Coutinho afinal é de Vasco da Gama, informação fornecida pelo José Miguel, fotografo oficial do Fingoé, mais conhecido pelo Fofi. Vive em Ponta Delgada (jose.miguel.viveiros@gmail.com) e quem visitar os Açores e a  Ilha de S. Miguel pode contar com ele como guia turístico.

 

Ponham os vossos filhos e netos a trabalhar, eles é que percebem disto. O blog fica aberto à opinião de todos,  façam as alterações e modificações que entenderem.  

 

 Um abraço para todos, espero que gostem

 

Benildo

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publicado por Benildo Lopes às 18:32

Outubro 23 2009

 

 

 

BENILDO AUGUSTO PINHEIRO LOPES

EX-FURRIEL MILICIANO (ENFERMEIRO) - Bat.Caç. 2863 - C.C.S.

 

Apurado para todo o serviço militar em 11 de Junho de 1965. Incorporado em

 10 de Abril de 1967 - Regimento Infantaria 5 - 2ª. Companhia - Caldas da Rainha

Presente para a frequência do 1º. ciclo do curso de sargentos milicianos (recruta no RI 5). Ficou apto para frequência do 2º. ciclo do C.S.M. em 25 de Junho de 1967 e terminou com a classificação de 12,70 valores o 2º. ciclo do Curso de Sargentos Milicianos do Serviço de Saúde em 9 de Setembro de 1967, no Centro de Instrução que funcionou na Escola de Serviço de Saúde Militar da Estrela - Lisboa. Promovido a 1º Cabo Miliciano em 11 de Setembro de 1967 por ter concluído com aproveitamento o 2º ciclo do Curso Sargento Miliciano. Contando a antiguidade desde 25.09.967.

07 de Maio de 1968 - Hospital Militar Principal (Estrela-Lisboa)

Estágio da sua especialidade em 7/5/967 no H.M.P. Nomeado para servir no Ultramar nos termos da alínea c) do Artº. 3º do Dectº. 42937 de 22/04/60. Promovido a Furriel Miliciano em 12 de Outubro 1968, contando a sua antiguidade de 1 Nov. 68, em conformidade com o nº. 3 da determinação incerta na O.E. nº. 5 - 3ª Série de 20.2.67.

04 de Janeiro de 1969 - Navio Niassa

Embarcou para a Província Ultramarina de Moçambique em 4 de Janeiro de 1969, fazendo parte da CCS/BCaç. 2863/RI 16.

Desembarcou em Lourenço Marques em 25 de Janeiro de 1969 desde quando conta 50% de aumento no tempo de serviço. Presente no Fingoé em 1 de Fevereiro de 1969 desde quando conta 100% de aumento no tempo de serviço.

08 de Julho 1970

Desde quando deixa de contar 100% de aumento no tempo de serviço. Passou a contar 50% de aumento no tempo de serviço.

23 de Fevereiro de 1971 - Navio Niassa

Embarcou em Moçambique de regresso à Metrópole em 23 de Fevereiro de 1971, desde quando deixa de contar 50% de aumento no tempo de serviço.

Desembarcou em Lisboa em 19 de Março de 1971.

 

(descrição das Ocorrências extraordinárias da Caderneta Militar)

 

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publicado por Benildo Lopes às 17:52

Outubro 23 2009

 

 A RECRUTA

 

A minha história com a tropa, começou a 10 de Abril de 1967, no Regimento de Infantaria 5,

2ª Companhia, nas Caldas da Rainha, onde assentei praça. Parti de comboio na Estação do Rossio, em Lisboa, levando na mala uma marmita cheia de pasteis de bacalhau, que a minha mãe tinha feito, para eu não passar fome nos primeiros dias de tropa. Sentei-me no comboio, que ia cheio de mancebos com o mesmo destino, e em frente sentaram-se dois amigos de Lagoa - Algarve, que não tinham pasteis, mas tinham um garrafão de vinho, muito bom, da dita terra. Pastel puxa vinho e vinho puxa pastel, fizemos uma grande patuscada durante a viagem, claro, quando chegámos às Caldas já não havia nem vinho nem pasteis. Quando me levantei no comboio para ir para a tropa,  verifiquei que estava com o maior "pifo" que apanhei na minha vida. Não sabia se o quartel era para a esquerda ou para a direita. Apanhei um táxi e ainda consegui dizer ao motorista que queria ir para o Regimento de Infantaria 5, que não fazia a mínima ideia onde ficava. Dos meus amigos de viagem nunca mais soube deles, mas a história ficou para sempre.

             Recruta 11.Julho.1967 - RI 5 Caldas Rainha    

 

                                                        

           Recruta 26.Abril.1967 - RI 5 - Caldas da Rainha

 

A ESPECIALIDADE

 

A  24 de Junho de 1967, terminei a minha recruta, e como todos, fiquei na expectativa de saber qual a especialidade que me tinha calhado, contra todas as probabilidades saiu-me a enfermagem, coisa que nunca me tinha passado pela cabeça.

Na noite de S.João cheguei a Lisboa, com um calor abrasador onde fui colocado no Batalhão Sapadores de Caminhos de Ferro, um quartel muito antigo, no bairro de Campo de Ourique em Lisboa, o mais perto do Hospital da Estrela.

O curso de enfermeiro foi feito no anexo da Basílica da Estrela, durante 12 meses acompanhado do estágio da especialidade no Hospital Militar Principal, em Medicina 3 (soldados e cabos) onde aprendi a especialidade que me reservaram.  

  

Hospital Militar Principal - 11.05.1968

Em Novembro de 1968, fui nomeado para servir no Ultramar e enviado para Évora para formar Batalhão no Regimento de Infantaria 16, onde o Batalhão Caçadores 2863, já estava em formação e na semana de campo, que antecedia a ida para guerra. Semana esta, de má memória, onde o Batalhão teve as suas primeiras baixas mesmo antes de partir para Moçambique.

 

23 de Novembro de 2009 - Ver comentário de João Gonçalves

 

Quando aconteceu o acidente na semana de campo, descrito pelo João Gonçalves, ainda me encontrava no Hospital da Estrela, e aí tivemos contactos com os feridos, eu e os  enfermeiros das outras companhias. Lembro-me que o Comandante Costa Pinto também tinha um pequeno estilhaço de granada na cara.   

 

memórias de

 

Benildo Lopes

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publicado por Benildo Lopes às 17:51

Outubro 23 2009

 

ANTES DA PARTIDA 

 

NOITE 3 JANEIRO 1969 - ÉVORA

 

Não sei como passei o dia 3 de Janeiro de 1969, mas a noite de 3 para 4 nunca mais a vou esquecer, pois foi de tal modo intensa que merece ser contada. A tropa até aquele noite foi o passar do tempo, com a recruta, com a especialidade, visitas de fim de semana à família e o estar na sociedade quase como na vida civil, ou seja viver com medo ou sem ele no regime de ditadura que nos obrigava a ir para a guerra.

A ultima noite passada na Metrópole antes de embarcar para Moçambique no navio NIASSA foi para mim o virar da página, da maneira de estar na vida, pois foi passada completamente em claro ninguém dormiu, pela primeira vez ouvi cantar canções de protesto, do Zeca Afonso e outros cantores da época, que o regime repudiava e a PIDE vigiava, canções cantadas a plenos pulmões sem o medo e sem receios, pois que mal pior do que ir para a guerra nos podia acontecer. Por alguns momentos senti o sabor da euforia e da liberdade, mas rapidamente isso acabou e deu lugar outro medo, o da guerra desconhecida, que íamos enfrentar e que a partir do embarque não sabíamos se tinha retorno, como infelizmente não teve para muitos camaradas nossos.

 

A PARTIDA

 

Foto tirada do Niassa com as nossas famílias ao fundo no dia 4 Janeiro 1969 

Foi este o momento em que o Niassa largava do porto de Lisboa com destino a Moçambique, não sei que horas eram, mas penso que foi durante a manhã.

 

(26.10.2009) O Carlos Alberto Correia da Silva - Furriel Vague-Meste - da C.Caç. 2471

(cac.silva@netcabo.pt) esclareceu, o Niassa levantou ferro de Alcantara às 12 horas de 04/Janeiro/1969. Obrigado.

 

A VIAGEM

 

Da viagem para Moçambique não tenho muitas histórias, alem do magnifico convívio entre todos. Tentámos aproveitar o melhor da viagem de barco, que julgo na altura, a primeira para todos, só ultrapassada pela segunda que foi o nosso regresso á Metropole.

 

 

 

 A pedido de várias familias aqui vai o nome dos craques: o Lemos, o Mesquita, o Rebelo (petardinho), o Benildo, o Ramos e o Pedro  

 

 

Só uma lembrança menos agradável para alguns, na passagem pela Cidade do Cabo (Cabo da Boa-Esperança), o mar estava um pouco alterado e o Niassa balouçava um pouco  ou muito, só me lembro que numa das refeições fiquei só à mesa, todos os outros companheiros desertaram enjoados.  No regresso, no mesmo local em 1971, foi o caos, o mar estava aí bastante mais alterado e poucos escaparam ao enjoo durante dois ou tres dias. 

Depois da partida de Lisboa, andámos cerca de duas semanas só a ver mar, nada mais, a não ser os peixes-voadores que acompanhavam o Niassa e que nos presenteavam com os seus voos, nunca mais vi tais peixes.

Fizemos escala em Luanda-Angola (data?) onde nos deixaram esticar as pernas,durante umas horas, depois de tantos dias de barco e que deu para conhecer um pouco da capital angolana.

 

CHEGADA A MOÇAMBIQUE 

 

Chegámos a Lourenço Marques (hoje Maputo) no dia 25 de Janeiro de 1969 (fotos ?) onde os batalhões e companhias que seguiam no Niassa fizeram um desfile para a população da cidade. Ai ficámos cerca de dois dias, antes de seguir viagem até à Beira, nosso destino maritimo final. 

A 27 ou 28 de Janeiro chegámos ao porto da Beira, penso que aí já sabiamos que o nosso destino era a provincia de Tete. Antes do desembarque foi distribuida a todos os militares a bordo a farramenta de trabalho que nos iria acompanhar durante dois anos a velhinha G3 e respectivas munições. Logo aí ao desembarcar de G3 na mão, para nos defender-nos,  ficou a sensação que a guerra começava ali na Beira, quando ainda estava a 1.000 km de distancia do destino que nos haviam reservado. Tal era o conhecimento que tinhamos da guerra. Ao chegar ali  éramos os "checas" mais recentes em Moçambique. Tudo tem um principio. 

Depois seguiu-se a azáfama de desembarcar o batalhão, após quase um mês de viagem. Fomos levados para a estação do caminho de ferro da Beira, por sinal bastante moderna, ampla e bonita, onde aos poucos nos fomos acomodando no comboio que nos esperava para levar ao destino.

 Estação CFM da Beira em 1968

 

 

Depois de todos arrumados no comboio, sem ficar ninguém para trás, lá partimos para Moatize ao final do dia 29 de Janeiro, cerca das 20 horas, já noite cerrada. 

O comboio era movido por maquinas a carvão, o que nos dificultava um pouco a viagem, pois alem do calor a que ainda não estavamos habituados, a fuligem vinda das chaminés agarrava-se-nos ao corpo suado. O comboio avançou Moçambique dentro por entre a escuridão, sem nada se poder ver, cada um acomodou-se o melhor que lhe foi possível, para tentar dormir. Depois de varias horas de viagem a dormitar, o comboio parou numa estação, não faço a minima ideia qual, eram cerca das 4 horas da manhã, já o sol ia alto e abrasador,  levantei a cortina da janela e a primeira imagem que tenho do Moçambique profundo foi um preto na plataforma da estação vestido com uma gabardine que lhe cobria o corpo todo só deixando ver a cabeça.  Cena inesquecivel.

A viagem continuou durante o dia todo. Passámos por uma ponte de ferro com varios quilometros, sobre o Zambeze, até chegar a Moatize, penso que ao fim de 36 horas de viagem(?). Moatize era, e penso que ainda é, uma zona de minério de carvão, via-se por todo o lado montanhas de carvão à espera de ser embarcado para a Beira. Na altura penso que não havia estação. Descobri na internet a foto que vai a seguir. A viagem até à margem do rio Zambéze eram cerca de 20 km. 

                                                          Estação CFM de Moatize actual 

 

          Capela num embondeiro em Moatize (foto do Viana)                           

Chegados a Moatize cansados de tantas horas de comboio, suados, sem banho e com fuligem da chaminé do comboio agarrada ao corpo, não tivemos direito a descanso a parte mais dura da viagem até ao destino ainda estava para vir. Esperava-nos uma coluna de viaturas que deveria transportar o batalhão para os varios destinos que lhe tinham sido reservados.

Descarregado o combóio e carregadas as viaturas com todo o tipo de material do batalhão fomos levados cerca de 20 km até à margem sul do Rio Zambeze, em frente à cidade de Tete, na altura ainda não existia a Ponte sobre o Zambeze, que está na foto seguinte. Todo o batalhão foi transportado para a outra margem, em barcaças, uma especie de barco que não passava de uma plataforma plana onde cabiam meia duzia de viaturas e uma centena de homens. A travessia era bastante prigosa pois o Rio Zambeze naquela zona tinha uma corrente fortissima, e qualquer homem que caísse ao rio nunca mais era encontrado, não só por causa da corrente mas também devido à presença dos alfaiates (crocodilos) que estavam sempre à espera de um descuido para sua refeição.

A barcaça para fazer a travessia e chegar à outra margem ao local de desembarque tinha que avançar junto à margrm de saida, onde a corrente era menor, e só depois de percorrer 1 ou 2 km, contra a corrente, se metia na corrente forte e com a força dos motores chegava à  margem norte. 

Ponte sobre o Zambeze em Tete

 

(A ponte de Tete sobre o Zambeze começou a ser construida em 1970)

 

Chegados à margem norte ou seja a Tete, a coluna avonçou em direcção ao Fingoé, mas antes de lá chegar ainda fez escala na Chicoa, onde chegou já de noite e tivémos que pernoitar. Chicoa era outro local onde tinhamos de atravessar de novo o Rio Zambeze antes da etapa final até ao Fingoé.

Chicoa era um local sem casas nem luz onde viviam algumas pessoas encarregadas da barcaça para a travessia do rio. Foi a bem dizer a nossa primeira noite no mato com ração de combate para o jantar. Á hora de descansar um pouco os olhos, fazia um calor abrasador, cada um arranjou um canto para dormir. No meu caso foi debaixo de uma Berliet no chão enrolado num impermiavel de camuflado, só que a meio da noite acordei com um rio de agua a correr por baixo de mim. Estavamos na época das chuvas e quando chuvia era a sério. Passei o resto da noite sentado a pensar naquilo tudo que me estava a acontecer e no que estava para vir.

Logo que dia despontou, começámos a travessia, mais estreita que em Tete, mas de igual modo perigosa.

Enfim os "checas" chegaram ao Fingoé no dia 1 de Fevereiro de 1969, quase um mês depois  de sairem de Lisboa. O batalhão que fomos render (penso que era o Bat.Caç. 1906?) fez-nos a recepção da praxe, com a alegria de que iam ser rendidos, e de que a guerra para eles estava a chegar ao fim. Começava então a missão do Batalhão de Caçadores 2863 e das suas companhias, CCS no Fingoé, C.Caç. 2470 no Fingoé e depois Gago Coutinho, C.Caç. 2471 no Muze e a C.Caç. 2472 no Zambué. 

Outros locais onde havia companhias ou pelotões sob comando do batalhão, que me lembre, eram Vasco da Gama, Gago Coutinho, Cantina do Oliveira e outros, o Google não mostra.

 

 O teatro de operações do Batalhão Caçadores 2863, no Google.

 A norte da linha amarela é a Zambia

 

A Barragem de Cahora Bassa, começou a ser construida em Setembro de 1969, depois do batalhão já estar instalado, penso que a zona de acção do batalhão servia de tampão de defesa a norte, para que a  construção não tivesse problemas. A Frelimo intensificou a guerra nesta area, quando chegámos, mas nunca fez nada para impedir a construção da barragem, porque Samora Machel reconhecia que a mesma era para o interesse de Moçambique.

Já agora o nome Cahora Bassa, vem do dialecto local, que queria dizer "agora passa",a população quando queria atravessar o Rio Zambéze a pé era nesta local que o fazia, por ser uma garganta estreita de facil passagem do rio. Foi por isso que o local foi escolhido para a construção da barragem, na época a maior de toda a Africa.

Outra versão num Link do Google diz  que "Kahoura Bassa" significa "acaba o trabalho".

Seja como for a barragem chama-se "Cahora Bassa" e foi uma grande obra da engenharia portuguesa, construir uma barragem no meio da selva, é obra.

 

memórias de

 

Benildo Lopes

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publicado por Benildo Lopes às 17:50

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