Batalhão de Caçadores 2863 - C.C.S.

Dezembro 04 2009

DEPOIS DO FINGOÉ

Segundo consta na minha caderneta militar, em 8 de Julho de 1970, deixei de contar 100% aumento de tempo de serviço e passei a contar 50%. Isto quer dizer que foi nesta data que o batalhão deixou a zona de guerra e passou para uma zona considerada de descanso. De memória não me lembro de datas, mas penso que foi assim.

 

Depois de terminado o nosso tempo mais turbulento na guerra, fomos destacados para Vila Junqueiro, hoje Gurué (ver mapa do Google) terra do chá Licungo o mais conhecido.

Não tenho grandes recordações da nossa rendição nem fotos, mas penso que haverá camaradas com boas fotos para publicar no blog. Recordo-me que a recepção aos "checas" foi feita em grande festa de boas vindas, com cobertura fotográfica e respectivas filmagens da RTP do Fiongoé.

A nossa retirada do Fingoé foi feita com todos os cuidados de defesa e segurança, a picada até à Chicoa onde tínhamos que atravessar o Zambeze, foi guardada por varias secções ao longo dos quilómetros que tínhamos de percorrer, para evitar a surpresa de alguma mina ou emboscada, que na altura, antes da retirada, bastantes baixas nos causaram. 

 

"Catamarã" para travessia do Zambeze na Chicoa

Transportando uma Berliet e alguns homens

(nas margens o porto de acostagem era uma maravilha)

(Foto de Carlos Alberto Correia da Silva)

Em Tete atravessámos novamente o Zambeze da mesma maneira que o tínhamos feito quando chegámos. A ponte que hoje existe, na altura, estava ainda em construção os dois pilares no meio do rio, só mais tarde foi inaugurada penso que em 1971, já estava na Metrópole quando ouvi a noticia.

Ponte suspensa em Tete

 

Da viagem de comboio até à Beira, não me lembro nada, tal era a vontade que tínhamos de sair daquela zona que tanto desgaste nos tinha causado.

Chegados à Beira fizemos mais uma viagem no Niassa, que na altura vinha carregado de homens e material de guerra vindo de Lourenço Marques (canhões, obuses e outro material), bastante visível no navio, estava em marcha a tão falada "Operação Nó Górdio" que tinha por objectivo a tomada da "Base Beira" o "Quartel General" da Frelimo. Toda a gente, civil e militar, falava desta operação, o que na altura se achava estranho, uma operação desta envergadura ser do conhecimento publico, pois a Frelimo também o devia saber já. Como se soube mais tarde foi uma estratégia do Comandante Militar General Kaulza de Arriaga, como era impossível esconder uma operação de grande envergadura como esta, deu dela conhecimento a todos, o que amedrontou a Frelimo, que retirou todos os meios para uma segunda base chamada Gungunhana, o que não se sabia é que o maior esforço da operação foi precisamente para esta segunda base, apanhando de surpresa a Frelimo, que ficou enfraquecida com a apreensão de grande parte do material de guerra que dispunha. Durante uns tempos a guerra abrandou em Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

Com esta exposição de meios, a mostrar ao inimigo, aproveitámos a viagem e assim fomos até mais a norte, havia tropa num lugar chamado Natal, junto à costa, como não havia porto, a rendição era feita em pequenos barcos.  Depois visitámos Porto Amélia (hoje Pemba). O Niassa ficava também ao largo por não poder aportar, e nós éramos levados em pequenos barcos para visitar a cidade, bastante bonita por sinal.

Depois viemos a desembarcar no porto de Nacala, onde ficámos uma noite no navio, á espera do dia seguinte, para formar uma coluna que nos levaria até Vila Junqueiro.  No mapa abaixo, tirado do Google, mostra o porto de Pemba (ex-Porto Amélia) que visitámos e o porto de Nacala mais a sul, a coluna seguiu por picada em direcção a Entre-os-Rios e depois para Gurué (ex-Vila Junqueiro). Não tenho muitas recordações desta viagem, lembro-me que ainda no navio Niassa grande parte do batalhão foi vacinado contra a picada da mosca "tsé-tsé" que provoca a chamada "doença do sono" (tripanossomíase) doença grave, que grassava nesta região.

Vista de praia Pemba (ex-Porto Amélia)

Mercado de Pemba zona dos Macuas(as mulheres pintavam a cara de branco)

 

Porto de Nacala, onde desembarcámos do Niassa, a caminho de Vila Junqueiro

Mapa do Google  

 Vistas de Vila Junqueiro

 

Espectacular as plantações de chá

Bonitas paisagens, sempre chá

Apanhando as folhas do chá, campos do Gurué (ex-Vila Junqueiro)

Igreja de Vila Junqueiro

Vista de Vila Junqueiro (actual Gurue)

 

A estadia da C.C.S. em Vila Junqueiro foi muito curta, penso que quatro a cinco meses, o quartel era pequeno, mas desempenhou bem o seu papel de hotel para descanso de guerreiros. O clima era bastante húmido, estava sempre uma espécie de "cacimbo" como se diz em África, mas no entanto era agradável. Penso que seria o clima ideal para o cultivo do chá preto, havia imensas plantações que davam uma paisagem verde bastante bonita. Com este clima havia também bastante fruta, como laranjas e bananas que se compravam a preços bastante convidativos. Escusado será dizer que nunca bebi tanto chá na minha vida, com leite ou sem ele, era bebido do pequeno almoço até ao jantar.

Vila Junqueiro era uma cidade pequena do interior de Moçambique com uma vida bastante própria, pois tudo rodava à volta do comércio e produção do chá. Havia alguns ingleses que residiam na cidade que o negociavam para exportação para Inglaterra. Foi calma a nossa estada em Vila Junqueiro sem grandes histórias para contar.

Lembro-me que no dia que saímos do quartel, os produtores de chá, presentearam-nos com caixas e caixotes de chá de todos os tamanhos, na parada do quartel havia uma pirâmide de caixas, cada um escolheu  a caixa que lhe interessou. 

Sem alguém tiver fotos da nossa estada em Vila Junqueiro e as queira publicar é só mandar.

  

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publicado por Benildo Lopes às 12:14

Amigo,continuas em grande com o teu blogue.
Lindas fotografias.
Um abraço
JC
Jose Catalo a 4 de Dezembro de 2009 às 21:57

Pemba ex-Porto Amélia) é para mim a cidade mais bonita de Moçambique. Tem as infraestruturas mais modernas para um turismo de 4 e 5 estrelas, as praias espectaculares, os melhores mariscos e a possibilidade de viajar de avioneta até às Quirimbas , arquipélago meio selvagem com hoteis de 5 estrelas. É caro, mas vale a pena.
Sobre aquela fotografia do Gurué mostrei aos meus colegas e ninguem conseguiu descobrir o local. A praça está lá, mas a água do lago secou e as flores murcharam, além de que as ruas circundantes não têm buracos, têm crateras !!
O que não se alterou foi a beleza natural do Gurué e o clima previligiado que possui. As plantações de chá foram quase todas recuperadas assim como as propriedades agrícolas dos arredores .
Para matar saudades têm que programar um passeio a Moçambique. Apesar de tudo vale a pena visitar os sítios por onde andámos.
Um abraço
João Gonçalves
joão gonçalves a 7 de Dezembro de 2009 às 08:38

Amigo João Gonçalves
As fotos foram tiradas do Google . A passagem da C.C.S . por Vila Junqueiro foi curta, mas lembro-me que o clima da região era óptimo e as paisagens espectaculares.

Um abraço
Benildo Lopes a 8 de Dezembro de 2009 às 21:46

Parabens pelo texto e as belas fotos. Tenho boas lembrancas,pois morei 2 anos no Cha magoma. Saudades daquela gente...
Claudio Fisch a 8 de Janeiro de 2013 às 22:14

Parabens pelo texto e as belas fotos. Tenho boas lembrancas,pois morei 2 anos no Cha magoma. Saudades daquela gente...
Claudio Fischborn a 8 de Janeiro de 2013 às 22:17

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